o estado da educação ou a educação do estado

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1668703

Notícias pouco animadoras. Este parece ser o mais complexo de todos os anos. Mais um reflexo do (des)investimento que o actual “esquema” educativo faz nos seus alunos. E digo esquema e não sistema,  porque me parece um esquema com um fim muito pouco dignificante: gerar técnicos mais ou menos intermédios, eficazes e promotores de países economicamente fortes. A educação deixou de ser “educativa” e a escola afasta-se a passos largos do título de inclusiva, que os países ditos desenvolvidos apregoam. Recebe pessoas (ou alunos, mas prefiro chamar-lhes pessoas) de todos os géneros, credos, cores, com o objectivo de os converter num tipo comum, pré-formatado. Desperdiçamos a diversidade, a imaginação, a criatividade e a humanidade.

Os psicólogos nas escolas, bem como os outros profissionais, têm uma tarefa bem difícil pela frente. Devem despir-se da sua pele humanista e dominar todos os instrumentos técnicos que lhes permitam aferir em números a prateleira em que devem encaixar os “desencaixados”, os “desformatados”. De uma forma ou  de outra, todos os alunos devem converger para o aluno-tipo, senão pelo menos aproximar-se o mais possível, acreditando que assim se transformarão no cidadão-técnico-desejável, sejam eles bons, maus, assim-assim ou nee’s, como insistem em chamar-lhes.

Não perdemos tempo a conhecer as pessoas, compreender o seu ponto de vista, sentir o que é estar na sua pele, perceber o que realmente necessitam e como podemos ajudá-las. Importante é dominar o complexo conjunto de leis, a linguagem dos “contactos pessoais” e das ligações partidárias e ser-se suficientemente esguio para conseguir passar esta corrida de obstáculos. Perdemos mais tempo a tentar descobrir como contornar mais uma legislação para conseguir dar resposta às exigências dos números, dos papéis e do mercado, do que a ensinar, educar ou, mais importante que tudo isto, brincar. Perdemos a diversão do jogo, jogamos ao consumo. O próprio recinto escolar tornou-se um jogo de consumo e de escalada, quando as escolas se debatem por lugares em rankings e por angariar alunos. Angariar alunos para não fechar, angariar alunos para não perderem professores, angariar alunos para se tornarem escolas de excelência (?).

O tema que se vem debatendo é “a qualidade de ensino”. Mas acho que teremos de questionar muito atrás antes de lá chegar. Qual ensino, para quem e com que objectivos? O que é feito do ensinar a pensar?

Estou de facto cada vez mais satisfeita com a decisão de não me recandidatar aos lugares nas escolas. Além de me sentir bem mais lúcida, não estou agora na angústia em que se encontram todos os meus colegas que aguardam ansiosamente que a sua vida para este ano se defina.

Algumas imagens do trabalho mais ou menos humanista que fui conseguindo, com muito jogo de cintura, desenvolver ao longo destes anos com os alunos  com que me fui cruzando, sem escalas de avaliação, nem siglas discriminatórias.

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