ser mãe

Em jeito de resposta à Iria, a propósito desta entrevista ao pediatra Carlos Gonzalez.

Cada vez que leio algo escrito por este pediatra sinto uma espécie de iluminação. Como se ele conseguisse pôr os meus instintos em palavras. Não é um homem qualquer. É um pediatra, pai de 4, que gozou ele próprio de licenças de parentalidade prolongadas.

Como eu, defende que devemos dar colo, atenção e muita disponibilidade. As modas educativas actuais confundem educar crianças com domesticar (que por caso é algo que me incomoda até nos animais) – a herança pesada da psicologia comportamental e do condicionamento. Como muitas mães, também sofri na pele a angústia de quem quer dar colo e atender um bebé que chora. Cheguei a fazê-lo disfarçadamente, como quem comete um crime. Os meus filhos dormiram comigo até se sentirem (eles e eu) confiantes para dormirem sozinhos. Mamaram em horário livre. E foram para a escolinha quando senti que queriam. Parece tão fácil agora. Mas foi tudo conseguido com um misto de angústia. Eu deixei o meu trabalho (não muito interessante,diga-se) para ser mãe a tempo inteiro a ter tempo para eles. Também parece simples, assim escrito, mas não foi (e não é), pelas razões óbvias (orçamento reduzido, carreira profissional suspensa, etc…).  É verdade, já fui psicóloga em tempos…

Agora já não são bebés, mas as dúvidas permanecem. Dá muito mais trabalho educar pelo sim do que pelo não. Requer mais tempo, mais atenção, mais partilha, mais igualdade. Exige que tentemos mudar a sociedade e o sistema de trabalho. Mas então, sabe tão bem ser mãe assim…
Quando a minha filha começou a andar e a mexer em tudo, também entrei para o grupo do não. Mas ela rapidamente me mostrou que não era domesticável. Demorei muito tempo a aprender a ser mãe dela (a aprender a ser mãe, no fundo) e continuo a aprender. Mas ficou tudo muito harmonioso e calmo quando parei com essa maluquice dos limites. No fundo, se todos queremos que um dia eles façam grandes voos, que sentido faz estar sempre a limitá-los, para além do essencial. Ninguém quer ter filhos limitados! Em vez de lhes darmos confiança e segurança para um dia quererem mudar o mundo, parece que o correcto é ensiná-los a meter a cabeça entre as orelhas e obedecer às regras incompreensíveis que guiam esta sociedade… Parece mais importante ensiná-los a aguentar a frustração do que combatê-la e transformá-la.

Eu sou uma mãe exigente. Mas mimo e exigência andam de mãos dadas. Cometo uma tonelada de erros por dia, por vezes sou exigente demais e tenho tendência para cair nas “modas educativas”, mas esforço-me por crescer, por ser melhor e me afastar de ideias absurdas. E isso vê-se cada vez mais nos olhos dos meus filhos. 

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11 thoughts on “ser mãe

  1. Adorei o post! Muito bom, é isso mesmo. É isto mesmo que sinto, que quero sentir, que quero fazer. ‘Demorei muito tempo a aprender a ser mãe dela’, é o percurso que sinto que estou a fazer, apesar de muitas vezes sentir que o faço ‘como quem comete um crime’, na forma como respondo ao seu choro, ou como lido com o seu chamamento de noite e a cama partilhada. E este texto, escrito por uma psicóloga e mãe, é assim também uma iluminação para mim como o Carlos Gonzalez para ti.

    uma delícia.
    Obrigada e beijinhos

    • :) Obrigada Íria. Se estas palavras te ajudarem a ter confiança nos teus instintos, então já valeu a pena escrevê-las. E não sou mãe/psicóloga, é impossível ser psicóloga dentro das 4 paredes de casa, mas é óbvio que a minha formação e experiência de trabalho me ajudam a ter alguma certeza e a desatar alguns nós. Mas acho que é a minha experiência como mãe e em família que mais enriquece o meu saber profissional. Talvez um dia possa usar tudo o que tenho vindo a aprender. Se algum dia voltar a ser psicóloga serei muito mais humanista, intuitiva, perspicaz e confiante.

      Mas há um coisa que tenho a certeza: os meus filhos partilharam cama comigo até um pouco depois do 1 ano (e eu não gosto particularmente de dormir com eles – mexem-se muito e não descanso) e lentamente começaram a ficar, cada vez mais tempo na sua cama. O mais novo (2 anos e meio) ainda aparece de vez em quando de madrugada, ao amanhecer e é bem vindo. Às vezes já percebe que fica muito apertado e se lhe pergunto se quer ir para a sua cama responde muitas vezes que sim (com a minha companhia claro!!). Deito-me no puf grande que pus no quarto deles de mão dada com ele na sua caminha e adormecemos os dois. E assim vamos crescendo. Qualquer dia já não dormem comigo. E eu que tanto quis que começassem a dormir sozinhos, vou ter muitas saudades desse mimo. Por isso, disso tenho mesmo certeza, dormir com eles não faz mal a ninguém, se for essa a sua necessidade (que nada tem a ver com a necessidade emocional dos pais dormirem com os filhos – isso seria tema para um debate muito diferente… e isso sim, já me suscita muitas dúvidas).
      Beijinhos

      • Exatamente! É delicioso dormir com a minha bebé no sentido em que ela é deliciosa e qualquer feita com ela é maravilhosa. E claro, que um dia ela não vai de todo querer dormir comigo, e efetivamente dormir com ela é muito desconfortável, eu sempre virada para um lado, encolhidinha para lhe dar espaço e ela a dar patadinhas, sim seguramente quando ela dorme na sua caminha eu descanso mais e essa sua autonomia deixa-me feliz.
        Entendo perfeitamente o que dizes. E sim, sinto-me tão mais confiante quando leio estas palavras :) Parece tontaria mas às vezes as mães precisam de incentivos destes para conseguirem confiar em si. E dizer ‘não’ ao resto do mundo. :)

  2. Também já tinha partilhado a entrevista no meu Facebook. É bom ouvir alguém, principalmente pediatra, a validar aquilo que coração de mãe sente. Não deveria ser assim, deveríamos ter mais confiança em nós e no nosso sentir mas também começo a perceber as dificuldades de “ir contra o sistema”. Somos olhados de forma estranha e bizarra e isto já começa com a gravidez em ambiente hospitalar. Obrigada Marta por partilhares, por me fazeres acreditar que é possível educar com consciência e sem fundamentalismos e por me fazeres sentir que não estou sozinha! Bjs

  3. Gostei muito de ler isto. Ler o Besame Mucho salvou-me do mar de incertezas. Toda a gente dizia-me para não dar colo, para dar fazer isto ou aquilo… E era exactamente o contrário do que sentia que devia fazer. O triste é que as pessoas agravam as suas críticas à medida que o tempo vai passando. Usa fralda? Já dorme sozinha? Ainda bem que já não mama! Quando é que vai para a escolinha?
    A infância, hoje em dia, parece que se tornou, para muita gente, uma corrida de obstáculos que só ganha quem lá chega primeiro. Enfim… E depois é o espanto devido ao número crescente de crianças e adolescentes com problemas de depressão e emocionais…
    Obrigada por este posto maravilhoso.

    • É verdade!! Com o tempo a coisa não melhora! Lembro-me disso da fralda. E da escolinha!!! E cá em casa não tivemos o “ainda usa chucha?” porque nenhum dois meus filhos quis chupeta. Mas curiosamente (e porque de facto a chupeta resolve muitas “autonomias”) fartei-me de ouvir “então e não lhe dá um chupeta?”. Mas mais à frente nunca ninguém disse, “boa! já não usa chucha!”. Toda a gente sente espaço para opinar a toda a hora, sem pensar duas vezes.

      Também sinto isso, que as pessoas gostariam que as crianças já nascessem ensinadas, como se preferissem que não fossem crianças, mas adultos em miniatura. É urgente torná-las autónomas, pô-las a dormir no seu quarto, comer sozinhas, falar inglês, etc etc… Para que os pais possam trabalhar e servir o PIB do país. Curiosamente, nunca como hoje tivemos adultos a viverem até tão tarde com os pais, com tanta falta de autonomia. Aquilo que não damos na altura certa, será “cobrado” mais à frente (é óbvio que se não atendemos uma necessidade na altura em que ela se evidencia, teremos de a atender mais tarde).
      Beijinhos e obrigada pela partilha

  4. Marta, identifiquei-me com tudo o que li na entrevista e com tudo o que escreveste (posso usar a segunda pessoa?).

    Às vezes (muitas) ainda durmo com a Beatriz, de 3 anos, porque ela precisa e porque eu preciso; e ainda não está na escolinha,…
    “Como é que é possível?” é uma das perguntas que mais ouço, mas sinto, no íntimo de mim, e à revelia de opiniões alheias que estou a fazer o correcto.
    No dia-a-dia há erros, claro, mas há amor e sempre vontade de fazer melhor.

    E, sim, muitas vezes tenho de me mentalizar e deixar o trabalho no sítio dele: fora de casa.
    A pressão para sermos grandes profissionais é enorme, mesmo que isso signifique ser uma mãe medíocre…

    Beijinhos e um Carnaval divertido para a Flor e para o Gafanhoto: assim com um fato tão giro até eu começo a gostar do Carnaval!
    Ana

    • Olá Ana, obrigada pela tua descrição.
      Acho que onde se ouve “Como é possível?” deve escutar-se “Que sorte, quem me dera…”
      A Beatriz tem muita sorte. Os meus foram para a escolinha com pouco mais de um ano e mesmo assim ouvi muitos comentários “Assim é melhor, sempre convivem com outras crianças, ficam mais despachados”, ou ” Vai-lhe fazer bem, estava muito dependente da mãe” (não percebo de quem mais é que haveria de estar dependente, com 12 meses de existência…), etc etc… Já para não falar da estranheza que causa deixar o trabalho para ser mãe…

      As pessoas estão tão preocupadas com o adulto em que que criança deverá tornar-se (à sua imagem!), que se esquecem de cuidar a criança que existe hoje. Felizmente muitos nos começamos questionar.
      Beijinhos

  5. Fiquei enternecida com o teu post, Marta, bem como com os comentários, de outras mães, que tal como eu, acreditam que ser Mãe deve ser algo natural e instintivo. Amamentei as minhas filhas até elas deixarem de querer (uma até aos 18 meses, a outra até aos 21 meses), sem culpa, graças a este excelente pediatra. Sou apologista do colo, dos mimos e também dos limites, quando estes são necessários. Gostei da tua frase: ” No fundo, se todos queremos que um dia eles façam grandes voos, que sentido faz estar sempre a limitá-los, para além do essencial. ” E amei esta: “Demorei muito tempo a aprender a ser mãe dela (a aprender a ser mãe, no fundo) e continuo a aprender.” Beijinhos

    • Acho que não é pura coincidência irmo-nos encontrando e lendo umas às outras na blogosfera. No fundo temos muitos pontos em sintonia, que se vão revelando, assim como os amigos não se escolhem por acaso. Este é um tema forte, mas nunca imaginei que suscitasse tantas respostas e tão reveladoras. Reveladoras da necessidade de mudança que muitas mães vêm reclamando. E neste sentido a Íria, que acendeu este rastilho de patilhas e desabafos, escolheu o título perfeito para o post “Não estar só”. É muito bom ter-vos por aqui.

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