trabalhador independente – crime disfarçado?

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Às vezes tenho a sensação de que ser trabalhador independente é uma espécie de criminalidade disfarçada. Por muito esforço que faça por me manter informada, por muitas perguntas que faça (julgo eu que no sítio certo), por muito que pesquise e acompanhe, a verdade é que mais tarde ou mais cedo, lá me encontro a dever qualquer coisa. Simplesmente porque a lei mudou..
– Mas em Outubro disseram-me que seria assim…
– Pois, mas isso mudou em Novembro…
– (certo, bolas, ok e como é que eu adivinho, pergunto ao vento?)

Ou porque a pessoa a quem se pergunta não informa completamente…
– Então, mas ainda há três meses cá estive e perguntei à sua colega se a minha situação estava toda regularizada e disseram-me que sim.
– Pois, mas essas informações não estão todas descritas no computador. Quando quiser saber mesmo tem de pedir uma declaração XPTO para a sua situação ser analisada por um técnico.
– (certo, bolas, então e não me podiam ter dito isso na altura…)

Esta é a era da informação, e os serviços até dispõem dos contactos das pessoas (mail, telefone, morada, serviços directos online, etc…). Esta é a era da informação. Nunca foi tão fácil contactar ou descobrir alguém. Nunca foi tão fácil informar as pessoas sobre alterações fundamentais que as podem colocar em incumprimento.
Mas não, a informação não chega. Nem nos informam das novas leis, nem das nossas dívidas. Vem tudo com o vento. Talvez o melhor seja reservar um dia por mês e todos os meses me dirigir aos diversos serviços para questionar sobre todas as possíveis e impossíveis novas alterações a uma série de coisas. Talvez assim conseguisse ser uma cidadã limpinha.

Agora, que não falham as comunicações das finanças a dizer que já posso consultar as facturas disponíveis a concurso, isso não falham. Eu não me candidato, para que não sobrem dúvidas. Também não peço abono de família (foi minha opção ter filhos, com muito gosto), nem subsídios daquilo-ou-daqueloutro… (levo muito a sério esta coisa do “independente”)

Para já, mantenho-me nesta sensação de que me tramam uma perseguição silenciosa e que assim que consiga resolver esta alhada, já estará mais uma preparadinha lá à frente, enquanto consulto uma panóplia de papéis e dou graças por os ter todos milagrosamente guardados (sim, porque a verdade é que entre dívidas devidas, há também algumas não devidas e é sempre bom poder prová-lo – o país está em crise e tenta ir buscar mais uns tostões aqui e ali).

Também não consigo entender todas as exigências (sim, altas exigências) que são feitas aos ditos trabalhadores independentes, como se a grande maioria destes tivesse uns trabalhos fantásticos, altamente remunerados. Não deveria o estado incentivar e apoiar quem se lança para criar o seu próprio trabalho em vez de ficar a amaciar o forro do sofá da sala? Por experiência própria e por conhecimento da situação de muitos amigos próximos, uma boa parte destas pessoas trabalha por gosto (que o mesmo é dizer, o que recebe não compensa o que tem de pagar para trabalhar).
E também pergunto, se a constituição portuguesa defende o direito ao trabalho, então o facto de o estado não prever que eu possa trabalhar para receber, suponha-se, 25 euros hoje, 10 euros daqui a 2 meses e até 5 euros, três semanas mais tarde (supõe-se que tenha de pagar sobre esse trabalho um valor absurdo em contribuições, impostos e mais-sei-lá-o-quê-de-mora) não é inconstitucional? Só se pode trabalhar se for para “enriquecer”? É preferível andar a mendigar rendimento sociais?

“Deixem-me trabalhar” (Quem se lembra desta célebre frase? [risos])
E sobretudo, não me digam para emigrar. Este país também é meu.

(Fim de desabafo lamurioso – amanhã volto às fotografias bonitas e ao lado romântico da vida).

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